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	<title>Facilitador de Grupos &#187; cooperação</title>
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	<description>Cultivo coletivo da inovação</description>
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		<title>Voluntariado e preservação da espécie</title>
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		<pubDate>Wed, 27 Jan 2010 15:25:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Ortiz</dc:creator>
				<category><![CDATA[Boas sementes]]></category>
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		<description><![CDATA[Entrevista de Marcos Affonso Ortiz Gomes ao Portal do Voluntariado em 2006.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Entrevista de Marcos Affonso Ortiz Gomes ao Portal do Voluntário www.portaldovoluntario.org.br</p>
<p><img class="aligncenter size-full wp-image-144" title="facilitadorvoluntario" src="http://www.facilitadordegrupos.com.br/marcosortiz/wp-content/uploads/2010/01/facilitadorvoluntario.jpg" alt="facilitadorvoluntario" width="500" height="150" /></p>
<p><strong>A ação voluntária é também parte do esforço natural feito pelo homem pela preservação da sua espécie e do planeta. Por isso, o importante sempre é o resultado e a continuidade da ação e não o nome do voluntário. Este entendimento é de Marcos Affonso Ortiz Gomes, que já foi operário, formou-se em História em São Paulo e doutorou-se em Sociologia do Desenvolvimento em Münster, na Alemanha. Hoje é facilitador e moderador em gestão socioambiental com larga experiência em alavancagem dos mais diversos tipos de projetos comunitários e ambientais pelo país.</strong></p>
<p><strong>PV: Você é voluntário de alguma organização?</strong></p>
<p><strong>Marcos -</strong> Onde eu sou voluntário de uma maneira organizada é na Associação Brasileira para a Promoção da Participação, criada por profissionais e pessoas que promovem a evolução, a ampliação do conceito de participação, de democracia, do fortalecimento do cidadão e da divisão de poder na sociedade.<br />
Essa associação, que chamamos de <span>PARTICIPE</span>, reúne-se para trocar idéias, ferramentas, e compartilhar isso com outras instâncias da sociedade por meio de publicações, cursos, contatos. Compartilhamos um saber, que nós imaginamos que ainda não está acabado e sobre o qual precisamos trabalhar muito ainda, pretendendo contribuir para a construção de mais espaços democráticos na nossa sociedade.</p>
<p><strong>PV: </strong><strong>Mas você é voluntário também como consultor, não?</strong></p>
<p><strong>Marcos -</strong> Todo ano eu escolho um grupo ou equipe e dou o melhor de mim como profissional de maneira voluntária. Estabeleço um limite de horas e coloco-as inteiramente à disposição. Este ano estou apoiando o Conselho Gestor da Estância Demétria e Sítio Bahia, em Botucatu, no interior de São Paulo.</p>
<p><strong>PV: </strong><strong>O que é participação?</strong></p>
<p><strong>Marcos -</strong> Participação não pode ser definida em poucas palavras para não se correr risco de deixar algo importante de lado. Mas me oriento pelos seguintes valores: a) do ponto de vista interpessoal, é saber o equilíbrio entre ouvir e falar; b) da perspectiva das relações, é partilhar poder baseado no talento e na essência que cada um traz como único para nosso mundo (e não podemos misturar o poder limitado pelo cargo ou pela imagem da pessoa ou da sua instituição); c) do viés da comunicação e da informação, é explicitar a intenção e o objetivo constantemente mediados pelo diálogo; do ponto de vista da ação, é planejar, agir e avaliar irremediavelmente com o “outro” incluído. Não importa que o tempo passe, pois o tempo medido com o relógio é uma ficção e uma pressão dos dois últimos séculos. O tempo da espécie é outro, o tempo planeta então nem é preciso falar.</p>
<p><strong>PV: </strong><strong>Por que vocês falam em promover a evolução,  a ampliação do conceito de participação?</strong></p>
<p><strong>Marcos -</strong> Participação é processo e aprendo participando que posso ir além. Participação e democracia dóem às vezes, pois a vontade pessoal do ego raramente vai corresponder à vontade de uma equipe, um grupo, uma nação. Por isso precisamos fortalecer, apoiar e facilitar os processos participativos, para que as pessoas e as instituições não tenham medo da dor e cresçam mais (por dentro). Nós assistimos a democratas autodeclarados que dão sinais fáceis de não ter paciência com a democracia. Queremos liderança participativa, pois elas nos impulsionam a evoluir. Ou o medo de encarar essas pequenas dores no dia-a-dia será maior e as mudanças precisarão de guerras, ditaduras, catástrofes e fortes dores. Deus nos é tão participativo que até isso ele nos deixa co-decidir.</p>
<p><img src="http://portaldovoluntario.org.br/photos/0007/6961/111759630684_profile.jpg" alt="" /><strong><br />
</strong></p>
<p><strong>PV:</strong><strong> Na sua opinião, quais devem ser os focos principais do voluntariado?</strong></p>
<p><strong>Marcos -</strong> Hoje nós temos uma consciência mais ampla do que é ser voluntário, o que nos permite atuar com consciência tanto em função do ser humano, criando ou participando de ações na sociedade pelo bem estar coletivo, como em função do meio ambiente, zelando pelos seres do mundo animal, do mundo vegetal, que necessitam também da nossa participação ativa e do nosso favorecimento. Só assim eles conseguirão se preservar enquanto espécies e o planeta como um todo conseguirá sobreviver.</p>
<p><strong>PV: </strong><strong>Qual deve ser a postura do voluntário na sua ação?</strong></p>
<p><strong>Marcos -</strong> O voluntário, eu acredito, normalmente tem impulsos que partem da razão. Ele se justifica mais ou menos assim: “Eu acredito, minha mente diz que eu tenho que ajudar nisso”. Mas em toda ação voluntária existe também um componente emocional, que não é consciente muitas vezes. É um impulso que parte lá do fundo, é um desejo relacionado com nosso vínculo emocional com os outros, que nos leva, de alguma forma diferenciada, a ficar a favor, ajudando os outros.</p>
<p><strong>PV: </strong><strong>A emoção ajuda ou atrapalha?</strong></p>
<p><strong>Marcos -</strong> Esse impulso emocional inicial é muito importante, conduz a gente a se mover a favor da sociedade em conjunto ou a favor de um grupo específico ou de pessoas na sociedade. O voluntário, porém, depois de seguir esse impulso emocional, deve tomar muito cuidado e criar um distanciamento para que o vínculo não seja afinal simplesmente emocional. Caso contrário, podemos misturar os sentimentos, nos envolver com o problema do outro de uma forma sentimental. Isso pode levar a gente a tomar decisões ou realizar determinadas ações que vão conduzir a um relacionamento capaz de deturpar a ação voluntária, comprometendo a importância da presença do voluntário para o outro ou para um grupo.</p>
<p><strong>PV: </strong><strong>Alguns voluntários chegam a  se sentir heróis, benfeitores. Como você vê essa realidade?</strong></p>
<p><strong>Marcos -</strong> Admiro muito o voluntário preocupado com a continuidade da ação voluntária e que não se preocupa em colocar o seu nome na frente da ação voluntária ou da sua continuidade. A autovalorização do voluntário e o personalismo de quem quer o seu nome vinculado à ação voluntária podem distorcer o seu papel diante do grupo que ele está ajudando ou das pessoas com as quais está se relacionando como voluntário. Nós, é preciso deixar claro, quando estamos ajudando, estamos essencialmente sendo ajudados também. Em cada passo, em cada ação social, principalmente se ela é voluntária, é preciso entrar com essa consciência: nós estamos sendo ajudados. Por isso, a valorização deve ser colocada no benefício gerado para o todo e não na importância que a pessoa tem nesse ato. Ou o amor é gratuito ou não é amor. É voluntário ou é negócio, mesmo que a barganha não seja explícita e não tenha valor monetário sendo esperado. Manter atenção sobre essa linha de separação é nosso desafio.</p>
<p><strong>PV: </strong><strong>Você defende que o voluntariado tem fundamento genético, físico, biológico. Como é isso?</strong></p>
<p><strong>Marcos -</strong> É importante que se coloque essa pergunta. Nós que vivemos no capitalismo cometemos algumas distorções graves ao interpretar a nossa presença no mundo, na natureza e nossa presença na sociedade. Uma dessas distorções foi interpretar muito mal o que o biólogo Charles Darwin nos ensinou, quando ele disse que as espécies que evoluem, as espécies que permanecem no planeta, são as espécies mais aptas. Nós entendemos erradamente que sobrevivem apenas as espécies mais fortes, fisicamente mais fortes.</p>
<p><strong>PV: </strong><strong>O que foi então dito por Darwin?</strong></p>
<p><strong>Marcos -</strong> Devemos entender de uma outra maneira o que foi colocado por Darwin como aptidão e não força. A aptidão está vinculada com a capacidade das espécies de aprenderem a ser colaborativas e perdurarem. Colaborativas dentro de sua própria espécie, vegetal ou animal, e colaborativas também para saber o momento certo quando necessitam da colaboração de semelhantes ou de outras espécies.<br />
O ser humano, se olhar para dentro de si, se olhar para dentro de suas células, vai encontrar processos bioquímicos e físicos em que uma célula é capaz de se sacrificar, se transmutar para suprir elementos que o corpo, por exemplo, não está conseguindo adquirir por meio da alimentação.</p>
<p><strong>PV: </strong><strong>O que significa isto?</strong></p>
<p><strong>Marcos -</strong> Nós temos processos de autopreservação da espécie que estão programados celularmente em nós mesmos. Naturalmente queremos nos ajudar a permanecer como espécie na Terra, como seres humanos. É importante resgatar isso. Quantas vezes nos surpreendemos com alguma força especial que temos, com alguma clareza que adquirimos para agir. De onde vêm esses impulsos? Se viessem somente da razão, ou o planeta estaria perfeito ou já teríamos nos extinguido. Existe um impulso natural para o voluntariado. Esse impulso é mediado, claro, é explicado por diferentes culturas. A ação voluntária pode ser detonada por uma visão nossa: que é bom ajudar o outro, que eu deveria ajudar o outro por alguma razão religiosa, por uma crença ou até por convicções políticas e sociais. No entanto, quando eu estou praticando o voluntariado, uma parcela desta prática vem de um impulso maior do ser humano, o de permanecer na face da Terra. Por isso, na hora em que está fazendo pelo outro alguma coisa, o ser humano está garantindo na verdade que a própria espécie possa perdurar.</p>
<p><strong>PV: </strong><strong>Então existe também uma tendência natural ao voluntariado a favor do meio ambiente?</strong></p>
<p><strong>Marcos -</strong> Quando se aprende isso, a cooperação pela perpetuação da espécie, a ação voluntária alcança também a esfera ambiental. O ser humano está começando a ter consciência de que ele tem que fazer por outras espécies, vegetais, animais, o que ele está fazendo por si mesmo. O objetivo é que esse conjunto, esse equilíbrio que nós alcançamos na vida do planeta Terra sejam mantidos e assim a nossa espécie não corra risco. Sem essa consciência, surgem práticas, como vem acontecendo, por exemplo, com a poluição das águas, que são predatórias e desfavoráveis à nossa permanência como espécie e trabalham no sentido de a gente não conseguir uma boa qualidade de vida nesse mundo.</p>
<p><strong>PV: </strong><strong>Você viveu vários anos na Alemanha. Que visão você trouxe do voluntariado alemão?</strong></p>
<p><strong>Marcos -</strong> Cada cultura, cada sociedade cria suas razões para voluntariamente estar disponível para o outro, para um grupo determinado, para uma causa. A Alemanha ainda apresenta, em sua cultura atual, uma marca muito grande deixada pelas guerras, principalmente pela 2ª Guerra Mundial. A dor causada pela guerra, a dor da destruição que botou em ameaça quase toda uma cultura, toda uma sociedade, e a dor causada pelo modo como eles agiram em relação às outras culturas levaram a sociedade alemã a ter uma preocupação muito grande com a dor do outro.</p>
<p><strong>PV: </strong><strong>Como isso se reflete na ação dos voluntários?</strong></p>
<p><strong>Marcos -</strong> O voluntariado alemão, no momento em que eu vivi lá, de 1988 a 1993, não cheguei a pesquisar sobre isso, mas senti isso, estava muito centrado em grupos e iniciativas que atuavam em determinadas situações que o capitalismo, mesmo mais social, como eles dizem praticar lá, não conseguiu resolver. Estou falando de moradores de rua, exilados, imigrantes, trabalhadores imigrantes. Viam-se, então, naquela época, jovens, adolescentes, adultos e idosos disponíveis na rua, abordando as outras pessoas – o que não é muito típico na cultura alemã – para arrecadar dinheiro, praticar ações de proteção da vida, de promoção da segurança das pessoas e assim por diante. Chamou-me a atenção também um outro ramo de voluntariado na Alemanha, o que procurava ajudar famílias a enfrentar dívidas, dívidas pessoais, dívidas familiares, o alcoolismo e outras, vamos dizer, ‘doenças’ e problemas sociais que sempre surgem no processo do desenvolvimento da sociedade.</p>
<p><strong>PV: </strong><strong>Que lembrança você tem do voluntário alemão?</strong></p>
<p><strong>Marcos -</strong> É um voluntário muito aguerrido. Quem é voluntário lá, é capaz de se doar muito pelo outro. É uma sociedade que trabalha muito para evitar a dor, a dor causada pela guerra. A guerra foi tão impressionante, tão terrível para as pessoas que elas procuram não ver essa dor renovada, espalhada. Pense em tudo que é possível ser feito para que essa dor seja evitada e você vai encontrar grupos e pessoas na Alemanha envolvidas em ações organizadas ou espontâneas, ajudando a sociedade na vida cotidiana, minimizando ou evitando a dor.</p>
<p><strong>PV: </strong><strong>Você defende que o nosso voluntariado deve levar em conta a tradição afro-brasileira e das culturas indígenas. Por quê?</strong></p>
<p><strong>Marcos -</strong> É comum a gente interpretar a história, em especial a nossa história, com um olhar europeu. Então a gente imagina que o voluntariado surgiu quando determinados grupos ou organizações religiosas passaram a ajudar lá na Europa a sociedade ou atuar na sociedade de modo a garantir a melhoria da vida de algumas pessoas. Mas, se nós olharmos para as nossas culturas, tanto a africana como as culturas indígenas, vamos perceber modelos de organização de sociedade assentados em processos de doação gratuita de um pelo outro, processos esses que garantiram que essas sociedades perdurassem e permanecessem. Foi por meio de ações coletivas de curas, ações coletivas para suprir necessidades de famílias que não conseguiram ser hábeis na caça ou não foram hábeis para construir seu abrigo, que estas sociedades conseguiram sobreviver.</p>
<p><strong>PV: </strong><strong>Você está falando de novo de Darwin? Do fundamento genético do voluntariado?</strong></p>
<p><strong>Marcos -</strong> Essas sociedades sempre se organizaram para apoiar as pessoas, que, do ponto de vista darwinista, eram mais frágeis, menos aptas para suprir suas necessidades. Funciona assim: o grupo social se organiza e as pessoas ficam sabendo como colaborar um com o outro. Nós temos essa herança muito forte, traduzida hoje em ação entre amigos. Contamos com isso dentro das famílias, no nosso grupo social temos o apoio e a amizade de uma rede enorme de acolhimentos sociais. Deste modo, é suprida uma série imensa de necessidades de uns pela ação de outros. No contexto de uma sociedade como a nossa, onde se concentra muito a renda, numa sociedade que tem disparidades muito grandes na partilha do poder e dos benefícios econômicos, nós vemos redes informais de todos os tipos. Parte delas são decorrentes de relações de amizade e parentesco, parte são grupos anônimos pelos quais a gente espontaneamente oferece alguma coisa, alguma forma de ajuda material, uma presença, uma ajuda cultural, uma ajuda educacional e assim por diante. E tudo isso é colocado à disposição do outro, de modo que esse outro possa de alguma maneira não sofrer tanto com a exclusão, não sofrer tanto com os problemas que são decorrentes do nosso tipo de sociedade.</p>
<p><strong>PV: </strong><strong>O que você faz profissionalmente?</strong></p>
<p><strong>Marcos -</strong> Presto serviços a ONGs, órgãos governamentais e empresas (&#8230;) , quando elas precisam planejar, fazer gestão e avaliação de seus projetos e ações. Capacitação e facilitação de processos de aprendizagem também são atividades que realizo. Neste mês, estou servindo a Associação Educacional Labor, de São Paulo, o Instituto de Pesquisa da Mata Atlântica, do Espírito Santo, e o Conselho Gestor da <span>APA</span> de Guaraqueçaba, no Paraná.</p>
<p><strong>PV: </strong><strong>De que trabalhos realizados você lembra com carinho, alegria? Que trabalhos, a seu ver, não deram certo?</strong></p>
<p><strong>Marcos -</strong> Resolvi interromper minha carreira como professor universitário para poder realizar trabalhos sem polarizar com a vida. Por todos os meus trabalhos tenho carinho e alegria. Destaco, entre eles, a Associação Educacional Labor porque sua missão é contribuir para que a escola pública se torne alegre, criativa e interessante para todos que dela fazem parte. O que não dá certo é o que é feito sem objetivo definido participativamente e sem a continuidade de quem tem força institucional para continuar. Todos os trabalhos sociais são processos, não existe certo ou errado. A maneira de olhar o resultado precisa ser estabelecida no coletivo e, se o processo respeitou cada nível da participação, ele terá resultados esperados e inesperados. A régua que utilizamos tem de medir, mas não precisa ser cartesiana. O “lucro” das ações sociais e voluntárias não é um problema da humanidade e do planeta, mas da cultura capitalista da nossa época. Nada substitui a consciência, os sinais e as impressões que construímos a cada trabalho, a cada ação.</p>
<p>Entrevista concedida ao <a title="Portal do voluntariado" href="http://portaldovoluntario.org.br/blogs/46277/posts/487" target="_blank">Portal do Voluntariado</a></p>
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