As árvores e o Código Florestal

Uma maneira de possibilitar a inovação é tirar as pessoas e os grupos que pensam diferentes da situação de confronto intensivo e da reatividade. O debate em torno da reforma do Código Florestal Brasileiro foi para esse campo de batalha. Cada parte não está ouvindo a outra em nenhum dos seus mais caros argumentos. A moderação de conflito é uma forma de buscar um salto evolutivo nessa questão tão importante. O caso das árvores que salvaram vidas nos remete a buscar outra qualidade para esse debate. Sempre necessário é mudar, um pouco que seja, a perspectiva de ver como as coisas são.

O que tem a ver as enchentes recentes de Alagoas e Pernambuco com a desmontagem do Código Florestal?

Assistimos uma série de reportagens mostrando o drama das famílias atingidas pelas enchentes e uma delas repetida várias vezes no horário nobre da TV foi de uma pequena comunidade que salvou suas 56 vidas agarradas aos galhos de dois pés de jaca. Era possível observar apreensão e alegria por terem sido salvos, especialmente por duas árvores. Os entrevistados tinham gratidão pelas companheiras que antes se lembravam da sua sombra e de seus frutos, mas agora seriam reconhecidas por lhes manter a vida e não os ter deixado serem arrastados feito uma folha seca na fúria da enxurrada, assim como foram suas casas.

É no mínimo lamentável ver grande parte da discussão no parlamento do Código Florestal por lideranças no poder que não sejam capazes de olhar as árvores além da perspectiva de estorvo econômico e como se elas atrapalhassem a agricultura e o desenvolvimento.

Essas lideranças precisavam conversar mais com suas bases. O agricultor real, na sua grande maioria, sabe reconhecer a importância das árvores no seu sistema produtivo e seu papel conservador da paisagem. Não suas lideranças, nem os técnicos que vedem insumos e nem os que fornecem financiamento, os quais vendem conjuntamente a idéia de que produzir até o limite máximo da propriedade é que daria renda e ganhos. O que assistimos são as empresas fornecedoras de insumos e os bancos lucrando com esse mecanismo de modernização da agricultura ha décadas, mas muito poucos agricultores.

A história já mostrou várias vezes que um sistema econômico mostra robustez e duração no tempo não apenas pela capacidade que tem de crescer e se expandir, mas fundamentalmente pela capacidade de assimilar por tempo determinado seus revezes e suas intempéries. Desse aprendizado é incompatível esse “esquecimento” de que as árvores são ativos imprescindíveis para a sustentação dos solos e das águas, as principais bases da produtividade agrícola.

Do episódio da salvação das pessoas pelas árvores em Alagoas tiramos ao menos três lições:

1) A mais óbvia é a ambiental: curvas de rio e árvores, especialmente diante das chuvas que têm sido mais concentradas e torrenciais, formam um complexo sistema de contenção e desaceleração da velocidade e da força das enxurradas. Rios retificados e sem matar ciliar, terra desmatada, qualquer coisa no ambiente fica vulnerável: gente, suas máquinas e equipamentos, suas construções, suas lavouras e o próprio solo.

Lá em Alagoas e Pernambuco, em territórios há muito ocupados sem preservar as matas ciliares, foi possível entender com essas enchentes as consequências de insistir na ignorância sobre esse sistema de preservação e desprezá-lo. O próprio Presidente da República, em visita aérea ao local, fez uma pergunta óbvia para toda imprensa gravar: “porque deixaram essas pessoas construírem naquele lugar?”

2) A lição econômica. Sem falar nas vidas perdidas que não tem preço, quanto vai custar a reconstrução das residências e equipamentos públicos destruídos? Quanto custa o tempo das crianças em seu aprendizado e na superação de seus traumas, enquanto as escolas servem de abrigos públicos de emergência e não há apoio psicológico para lidarem com os efeitos da tragédia nas suas vidas?

Seria muito simplista dizer que bastava existir as matas ciliares, a preservação das encostas e mais árvores em reservas que a tragédia não aconteceria em Alagoas e Pernambuco. Normalmente, porém, onde elas existem, onde há práticas de conservação de solos, as enchentes são mais amenas, mais orgânicas e não tão destrutivas.

A Grande São Paulo que optou crescer quase sem reservas, sem matas ciliares e com rios retificados pode dar seu testemunho por ter se transformado em área de alagamentos permanentes na época das chuvas. Esse é o modelo que vamos continuar a perseguir? Assentados na doação às vítimas e nos recursos tomados do Estado para cobrir as emergências?  Que economia é essa?

No campo, quanto custa repor solos e sua fertilidade após a passagens de enchentes e enxurradas que se avolumam porque não respeitamos as Áreas de Preservação Permanente – APP?

Por ser um custo que o agricultor paga em silêncio, ano a ano, no balcão dos insumos e na conta dos juros dos seus empréstimos, é difícil de fazer esse cálculo. Não faltam matérias na mídia e estudos científicos, porém, que calculam as perdas de solos e o custo da reposição de fertilidade no nosso modo de produção convencional. Aqueles metros a mais de área de produção, defendidos pelas lideranças ruralistas, pagam realmente essa conta?

3) A terceira lição é sociopolítica. Como as árvores não falam e não podem justificar sua importância, precisamos de intérpretes que coloquem evidências. Precisamos que todas as partes sejam ouvidas com atenção e com menos emoção de prós e contras, como se tratasse de uma partida de futebol. Apesar das audiências, apesar dos manifestos ainda falta muito diálogo e negociação menos emotiva e mais ajudada pela sabedoria científica e tradicional.

Ambientalistas técnicos que vivem o dia a dia do campo e os próprios agricultores que observam em pessoa suas terras e o clima precisam sentar para conversar. Se as lideranças e os técnicos comprometidos com os interesses da indústria de insumos e do sistema financeiro quisessem assistir, seria uma chance ótima para reverem seu modo de fazer política.

Quem estuda e defende o meio ambiente com responsabilidade e age com menos emoções perturbadoras, está muito mais próximo do modo de pensar da grande maioria dos agricultores brasileiros do que se imagina. Suas lideranças poderosas e convencionais arrebanham algumas bases através do discurso de vítima e do medo, fácil de colar diante de ações impulsivas de alguns tipos de ambientalistas.

De um lado, precisa ser interrompido o círculo vicioso de criminalização. Os crimes ambientais e sociais cometidos por ruralistas e especuladores do solo brasileiro devem ser caso de polícia, de órgão ambiental forte e de sistema jurídico desafogado, ou seja, crime é papel de um Estado organizado de modo competente para investigar, coibir, julgar e punir. Os cidadãos que os descobrem têm a responsabilidade civil da denúncia.

Do outro lado, a grande maioria de agricultores que seguiu um modelo tecnológico induzido pelo Estado do passado recente não pode ser tratada como criminosa, a priori, sob pena de não haver diálogo e aí não darmos a chance que precisamos para perceber que ambientalismo responsável está bem próximo dos agricultores que também questionam no seu íntimo o modelo agrícola que foram induzidos a seguir.

Porque continuar as negociações sobre a importância das árvores nas propriedades rurais dentro das paredes do Congresso Nacional, dos Hotéis e dos salões de vidro? Vamos promover um grande diálogo de agricultores de norte a sul e ambientalistas em baixo de uma grande sombra de uma árvore e falar das nossas experiências sobre elas. Aí, sim, chegaremos a consensos possíveis sobre o que é correto para nossa ação econômica na relação com o que as árvores contribuem. A partir disso, teremos medidas possíveis para equacionar uma modernização do Código Florestal, sem essa desfragmentação absurda que quer nos impor uma parcela de parlamentares à revelia do que a natureza e a ciência estão lhes mostrando.

Não merecemos nos lembrar de apenas algumas árvores que salvaram vidas em Alagoas, mas de muitas daquelas “invisíveis” que todos os dias passam segurando enchentes, ventos, solos, etc. em nossa proteção. Somos tão insensíveis para percebê-las? O ódio às árvores em nome de alguns trocados concentrados nas mãos de alguns poucos precisa ser revisto, assim como o ódio às pessoas que as derrubaram impulsionados pelo Estado e pelo modelo tecnológico

Marcos Ortiz

“O Importante é o que se leva na cabeça!”

Somos capazes de criar uma serie de inibições à inovação. As convenções sociais e as crenças são filtros freqüentes que nos afastam de pessoas, idéias e possibilidades transformadoras.
Um senhor que estudou e experimentou outras fontes de vida longe de sua cidade natal, voltou a morar nela. Inconformado com a situação da gestão política local resolveu entrar em campanha a prefeito motivado por amigos. Longe de sua cidade ele adquiriu hábitos diferentes, gostava de calçar sandálias e não vestia facilmente roupas formais. O que parecia uma pequena aventura, a sua candidatura ganhou força e já ameaçava o constante vai e vem no poder dos mesmos adversários locais. Esses, irritados e com medo, passaram a tentar difamar o novo candidato. Num comício um senhor do grupo político da situação gritou uma pergunta:
- “Candidato, se o senhor vencer as eleições, como vai representar nosso município nas reuniões com o governador? Vai de sandálias?”.
Era uma sinuca de bico. Se respondesse que sim, poderia ser interpretado como alguém que desrespeitaria a imagem do município perante as autoridades estaduais. Se respondesse que não, passaria por alguém falso, que muda a casaca facilmente. O jovem candidato foi rápido e saiu com uma resposta nada convencional. Perguntou o nome do participante, agradeceu a pergunta e disse carinhosamente: – “Meu amigo, nessa hora tão importante para o futuro do município, se eu fosse o senhor, não me preocuparia com o que uso nos pés, porque o importante é o que se leva dentro da cabeça”. O jovem ganhou as eleições e ainda é lembrado como um dos melhores prefeitos que a cidade já teve.
Uma lição desse episódio para inovação é transparente e direta: quantas vezes podemos excluir uma idéia inovadora, porque ela parte de alguém considerado de fora das nossas convenções? Não excluímos facilmente as pessoas?
Muitas vezes, até gostamos de uma pessoa. Achamos que faz sentido o que nos diz ou tenta dizer. Contudo, basta algum líder mais tradicional chamar a atenção por um julgamento de exclusão e rapidamente corremos o risco de julgarmos sem pensar, sem sentir e sem querer. Em pouco tempo as barreiras estão levantadas. Perdemos as conexões com nosso feeling e já descartamos as propostas de inovação que estavam colocadas, porque quem as colocou não se ajusta aos aspectos externos do nosso julgamento.
Nossas mentes produzem pensamentos e estes são formas de energias. Tanto podemos ser capazes de sintonizar ou tirar da sintonia das propostas de transformação e inovação que desejamos. Afinal desejos não bastam tão pouco a boa intenção.

Saber ouvir, profundamente: uma virtude para o saber

Muitas possibilidades de comunicação são perdidas, pois costumamos não dar a atenção merecida e nem o ouvir concentrado. Além dos filtros que temos da memória, dos gostos e costumes, nosso ouvir superficial trava o entendimento da idéia do outro. Ficamos repetindo nossas idéias e não damos passos para abrir ao novo.

Certa vez, na minha primeira incursão no interior de Minas Gerais, fui tomar café da manhã em uma padaria. A única e bem simples da localidade onde resolvi descansar. Cheguei com “aquela” fome. Uma moça tocava um pano de limpeza, como se o acariciando, na borda da pia do outro lado do balcão. Perguntei se era possível fazer um lanche. Ela levantou o olhar vagarosamente e acenou com o olhar que sim. Fiquei ali diante dela, esperando uma reação em direção àquilo que eu considerava o mais importante naquela hora: comer. Mas, nada… Seu olhar voltou-se para baixo, para o ponto que mirava antes da minha entrada e nenhum movimento houve, a não ser o das suas mãos sobre o pano como antes. Para mim, passou-se uma eternidade até que decidi, constrangido, repetir a pergunta inicial. O olhar da moça, já um pouco impaciente, encontrou-se com o meu e ela não vacilou em dizer: – “você não viu que estou pensando?”

Sim, claro que eu tinha visto, no instante daquela pergunta. Resolvi me sentar e dar uma chance para ela e para eu pensar. A fome pelo café da manhã já não era mais tão importante, mas sim a lição que poderia tirar daquele momento.

Dentre muitas lições que se pode tirar, me recordo desse episódio para reforçar como é importante a observação e a escuta, o ouvir o outro concentrado.

As informações circulam muito mais rápido do que a nossa capacidade de assimilá-las em sinapses, como dizem os especialistas. Se estamos inundados de informação e se o cérebro precisa de mais tempo para processar o que capta, imagine o que acontece se nem captarmos direito? Quantas ideias brilhantes podem  passar desapercebidas, sem que nossa percepção dê conta em reconhecê-las?

Desperdiçamos palavras e expressões de dois modos: falamos demais e captamos pouco do que nos é falado. A condição para criarmos em equipe é ouvir até o fim, mesmo que nos pareça absurdo o que está sendo dito. Damos mais energia ao responder do que ao pensar no que foi dito. Reuniões perdem muito em objetividade, porque não ouvimos. Se não ouvimos, não entendemos. Se não entendemos, ficamos mais distantes de descartar com propriedade o que precisa ser descartado de fato. Ficamos ainda mais distantes de apropriar o que precisa ser apropriado para que a equipe siga em frente.

Avatar, inovação e novas tecnologias

Inovar não significa recusar nossas conexões com os ancestrais, com as tradições que nos aperfeiçoam como humanos e profissionais. Impor fazer o novo por si não transforma grupos em equipes produtivas e criadoras. Facilitadores são auxiliares nesses processos.
Indaguei a um gerente, numa reunião de trabalho, se tinha visto o filme Avatar. Respondeu que não, mas que sua esposa e filha o assistiram. Ao seu lado, perguntei o mesmo à sua equipe com duas mulheres: sem exceção, elas tinham assistido ao filme duas vezes nos cinemas e relataram a emoção que sentiram. Não vacilei em recomendar ao gerente que o visse o quanto antes, se quisesse entender melhor o universo humano com o qual estava vivendo na sua vida pessoal e profissional.
As mídias veicularam muitas opiniões sobre este grande sucesso das bilheterias do cinema dos últimos tempos. Principais destaques são dados aos efeitos especiais, às novas tecnologias de 3D e às propostas de inovações futuristas dos armamentos e da promoção da vida bioquímica ligada ao avanço da informática: desenvolvendo o próprio avatar.
O enredo levanta, contudo, questionamentos sutis ao comportamento da humanidade. No filme, o povo que domina uma conexão essencial com a natureza e com a espiritualidade, domina, por sua vez, conhecimentos sobre energias e materiais que a ciência convencional ainda estaria longe de desvendar. Talvez, devido a esta forma de conhecimento estar muito presa ao seu modo de ver a objetividade e o método, além de como julga o que é tradicional e arcaico.
Com um pouco do Brasil colônia que ainda carregamos dentro de nós, cultivamos um preconceito de que substituir as fachadas velhas por mais modernas e recusar qualquer apelo ao tradicional é que estaremos inovando. “Indo ao primeiro mundo”, como se diz muito por aí. O fato de a Europa, o Japão e outros países asiáticos serem considerados de ponta na criação de inovações não é sinônimo de que suas sociedades recusem seus conhecimentos ancestrais, suas tradições e seus saberes essenciais.
A inovação sem valores humanos essenciais que a sustente e sem uma conexão com o respeito à natureza e aos serviços ambientais que nos presta é uma inovação sem futuro. A energia feminina que coloca nosso olhar bem lá na frente é fonte para inovação com sustentabilidade, como nos provoca o filme Avatar. Que tal nossas equipes de criação aprenderem a desenvolver olhares diversos para perceberem melhor a funcionalidade, os alcances e os impactos do que estão criando?

Marcos Ortiz
marcosortiz@facilitadordegrupos.com.br
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Quanto pode ser salobra?

Temos a capacidade de nos libertar das restrições e limites que nos impedem de proporcionar ambientes criativos e inovadores. Tudo depende das idéias que temos e alimentamos.
Certa vez, nos tempos que trabalhávamos com comunidades remotas, tive uma experiência em um distrito rural no semi-árido mineiro da qual extrai muitas lições. Quero compartilhar uma delas.
Um morador me levou até o único posso artesiano que abastecia de água a comunidade. Tomou um copo em suas mãos e o preencheu de água que visualmente era bem cristalina, parecendo muito a água tratada que conhecemos.
Ele levantou o copo em minha direção e me desafiou a beber. Não vacilei e com o copo já em minhas mãos iniciei um longo gole, pois andava muito quente por lá. Interrompi a bebida imediatamente quando o gosto forte de sal que mais parecia um final de pacote de pipoca me chegou a consciencia de degustação. O velho homem sorriu e me disse:     “- é, moço, a água aqui é salobra dependendo do tamanho da sede”.
Aquela frase simples me levou a pensar o quanto nossa zona de conforto pode levantar restrições pessoais ao ambiente de grupo e não deixar que nos tornemos uma equipe de inovação. Vamos a uma reunião de trabalho com a mente cheia de idéias e julgamentos que formatam nossas possibilidades de contribuir com o desempenho compartilhado.
Já saímos de casa prevendo o que um fulano vai dizer, como sicrana vai se comportar e assim por diante até entrarmos no ambiente coletivo que funcionará muito mais segundo nossas expectativas. Nossa mente estará tão preenchida de idéias sobre como as coisas funcionarão que será impedida de nos ajudar a ver as novas possibilidades que se abrem, de entender outros pontos de vistas e de nos distanciarmos do que acreditamos, bloqueando inovações dentro daqueles temas que somos especialistas e capazes de criar.
Impor condições não é igual garantir uma atmosfera de valores que suporte a inovação. Desejar uma situação ideal e ficar muito preso a ela nos retira da energia de ver diferente. Passo importante para descobrir coisas novas.

Marcos Ortiz
marcosortiz@facilitadordegrupos.com.br
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Voluntariado e preservação da espécie

Entrevista de Marcos Affonso Ortiz Gomes ao Portal do Voluntário www.portaldovoluntario.org.br

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A ação voluntária é também parte do esforço natural feito pelo homem pela preservação da sua espécie e do planeta. Por isso, o importante sempre é o resultado e a continuidade da ação e não o nome do voluntário. Este entendimento é de Marcos Affonso Ortiz Gomes, que já foi operário, formou-se em História em São Paulo e doutorou-se em Sociologia do Desenvolvimento em Münster, na Alemanha. Hoje é facilitador e moderador em gestão socioambiental com larga experiência em alavancagem dos mais diversos tipos de projetos comunitários e ambientais pelo país.

PV: Você é voluntário de alguma organização?

Marcos - Onde eu sou voluntário de uma maneira organizada é na Associação Brasileira para a Promoção da Participação, criada por profissionais e pessoas que promovem a evolução, a ampliação do conceito de participação, de democracia, do fortalecimento do cidadão e da divisão de poder na sociedade.
Essa associação, que chamamos de PARTICIPE, reúne-se para trocar idéias, ferramentas, e compartilhar isso com outras instâncias da sociedade por meio de publicações, cursos, contatos. Compartilhamos um saber, que nós imaginamos que ainda não está acabado e sobre o qual precisamos trabalhar muito ainda, pretendendo contribuir para a construção de mais espaços democráticos na nossa sociedade.

PV: Mas você é voluntário também como consultor, não?

Marcos - Todo ano eu escolho um grupo ou equipe e dou o melhor de mim como profissional de maneira voluntária. Estabeleço um limite de horas e coloco-as inteiramente à disposição. Este ano estou apoiando o Conselho Gestor da Estância Demétria e Sítio Bahia, em Botucatu, no interior de São Paulo.

PV: O que é participação?

Marcos - Participação não pode ser definida em poucas palavras para não se correr risco de deixar algo importante de lado. Mas me oriento pelos seguintes valores: a) do ponto de vista interpessoal, é saber o equilíbrio entre ouvir e falar; b) da perspectiva das relações, é partilhar poder baseado no talento e na essência que cada um traz como único para nosso mundo (e não podemos misturar o poder limitado pelo cargo ou pela imagem da pessoa ou da sua instituição); c) do viés da comunicação e da informação, é explicitar a intenção e o objetivo constantemente mediados pelo diálogo; do ponto de vista da ação, é planejar, agir e avaliar irremediavelmente com o “outro” incluído. Não importa que o tempo passe, pois o tempo medido com o relógio é uma ficção e uma pressão dos dois últimos séculos. O tempo da espécie é outro, o tempo planeta então nem é preciso falar.

PV: Por que vocês falam em promover a evolução, a ampliação do conceito de participação?

Marcos - Participação é processo e aprendo participando que posso ir além. Participação e democracia dóem às vezes, pois a vontade pessoal do ego raramente vai corresponder à vontade de uma equipe, um grupo, uma nação. Por isso precisamos fortalecer, apoiar e facilitar os processos participativos, para que as pessoas e as instituições não tenham medo da dor e cresçam mais (por dentro). Nós assistimos a democratas autodeclarados que dão sinais fáceis de não ter paciência com a democracia. Queremos liderança participativa, pois elas nos impulsionam a evoluir. Ou o medo de encarar essas pequenas dores no dia-a-dia será maior e as mudanças precisarão de guerras, ditaduras, catástrofes e fortes dores. Deus nos é tão participativo que até isso ele nos deixa co-decidir.


PV: Na sua opinião, quais devem ser os focos principais do voluntariado?

Marcos - Hoje nós temos uma consciência mais ampla do que é ser voluntário, o que nos permite atuar com consciência tanto em função do ser humano, criando ou participando de ações na sociedade pelo bem estar coletivo, como em função do meio ambiente, zelando pelos seres do mundo animal, do mundo vegetal, que necessitam também da nossa participação ativa e do nosso favorecimento. Só assim eles conseguirão se preservar enquanto espécies e o planeta como um todo conseguirá sobreviver.

PV: Qual deve ser a postura do voluntário na sua ação?

Marcos - O voluntário, eu acredito, normalmente tem impulsos que partem da razão. Ele se justifica mais ou menos assim: “Eu acredito, minha mente diz que eu tenho que ajudar nisso”. Mas em toda ação voluntária existe também um componente emocional, que não é consciente muitas vezes. É um impulso que parte lá do fundo, é um desejo relacionado com nosso vínculo emocional com os outros, que nos leva, de alguma forma diferenciada, a ficar a favor, ajudando os outros.

PV: A emoção ajuda ou atrapalha?

Marcos - Esse impulso emocional inicial é muito importante, conduz a gente a se mover a favor da sociedade em conjunto ou a favor de um grupo específico ou de pessoas na sociedade. O voluntário, porém, depois de seguir esse impulso emocional, deve tomar muito cuidado e criar um distanciamento para que o vínculo não seja afinal simplesmente emocional. Caso contrário, podemos misturar os sentimentos, nos envolver com o problema do outro de uma forma sentimental. Isso pode levar a gente a tomar decisões ou realizar determinadas ações que vão conduzir a um relacionamento capaz de deturpar a ação voluntária, comprometendo a importância da presença do voluntário para o outro ou para um grupo.

PV: Alguns voluntários chegam a se sentir heróis, benfeitores. Como você vê essa realidade?

Marcos - Admiro muito o voluntário preocupado com a continuidade da ação voluntária e que não se preocupa em colocar o seu nome na frente da ação voluntária ou da sua continuidade. A autovalorização do voluntário e o personalismo de quem quer o seu nome vinculado à ação voluntária podem distorcer o seu papel diante do grupo que ele está ajudando ou das pessoas com as quais está se relacionando como voluntário. Nós, é preciso deixar claro, quando estamos ajudando, estamos essencialmente sendo ajudados também. Em cada passo, em cada ação social, principalmente se ela é voluntária, é preciso entrar com essa consciência: nós estamos sendo ajudados. Por isso, a valorização deve ser colocada no benefício gerado para o todo e não na importância que a pessoa tem nesse ato. Ou o amor é gratuito ou não é amor. É voluntário ou é negócio, mesmo que a barganha não seja explícita e não tenha valor monetário sendo esperado. Manter atenção sobre essa linha de separação é nosso desafio.

PV: Você defende que o voluntariado tem fundamento genético, físico, biológico. Como é isso?

Marcos - É importante que se coloque essa pergunta. Nós que vivemos no capitalismo cometemos algumas distorções graves ao interpretar a nossa presença no mundo, na natureza e nossa presença na sociedade. Uma dessas distorções foi interpretar muito mal o que o biólogo Charles Darwin nos ensinou, quando ele disse que as espécies que evoluem, as espécies que permanecem no planeta, são as espécies mais aptas. Nós entendemos erradamente que sobrevivem apenas as espécies mais fortes, fisicamente mais fortes.

PV: O que foi então dito por Darwin?

Marcos - Devemos entender de uma outra maneira o que foi colocado por Darwin como aptidão e não força. A aptidão está vinculada com a capacidade das espécies de aprenderem a ser colaborativas e perdurarem. Colaborativas dentro de sua própria espécie, vegetal ou animal, e colaborativas também para saber o momento certo quando necessitam da colaboração de semelhantes ou de outras espécies.
O ser humano, se olhar para dentro de si, se olhar para dentro de suas células, vai encontrar processos bioquímicos e físicos em que uma célula é capaz de se sacrificar, se transmutar para suprir elementos que o corpo, por exemplo, não está conseguindo adquirir por meio da alimentação.

PV: O que significa isto?

Marcos - Nós temos processos de autopreservação da espécie que estão programados celularmente em nós mesmos. Naturalmente queremos nos ajudar a permanecer como espécie na Terra, como seres humanos. É importante resgatar isso. Quantas vezes nos surpreendemos com alguma força especial que temos, com alguma clareza que adquirimos para agir. De onde vêm esses impulsos? Se viessem somente da razão, ou o planeta estaria perfeito ou já teríamos nos extinguido. Existe um impulso natural para o voluntariado. Esse impulso é mediado, claro, é explicado por diferentes culturas. A ação voluntária pode ser detonada por uma visão nossa: que é bom ajudar o outro, que eu deveria ajudar o outro por alguma razão religiosa, por uma crença ou até por convicções políticas e sociais. No entanto, quando eu estou praticando o voluntariado, uma parcela desta prática vem de um impulso maior do ser humano, o de permanecer na face da Terra. Por isso, na hora em que está fazendo pelo outro alguma coisa, o ser humano está garantindo na verdade que a própria espécie possa perdurar.

PV: Então existe também uma tendência natural ao voluntariado a favor do meio ambiente?

Marcos - Quando se aprende isso, a cooperação pela perpetuação da espécie, a ação voluntária alcança também a esfera ambiental. O ser humano está começando a ter consciência de que ele tem que fazer por outras espécies, vegetais, animais, o que ele está fazendo por si mesmo. O objetivo é que esse conjunto, esse equilíbrio que nós alcançamos na vida do planeta Terra sejam mantidos e assim a nossa espécie não corra risco. Sem essa consciência, surgem práticas, como vem acontecendo, por exemplo, com a poluição das águas, que são predatórias e desfavoráveis à nossa permanência como espécie e trabalham no sentido de a gente não conseguir uma boa qualidade de vida nesse mundo.

PV: Você viveu vários anos na Alemanha. Que visão você trouxe do voluntariado alemão?

Marcos - Cada cultura, cada sociedade cria suas razões para voluntariamente estar disponível para o outro, para um grupo determinado, para uma causa. A Alemanha ainda apresenta, em sua cultura atual, uma marca muito grande deixada pelas guerras, principalmente pela 2ª Guerra Mundial. A dor causada pela guerra, a dor da destruição que botou em ameaça quase toda uma cultura, toda uma sociedade, e a dor causada pelo modo como eles agiram em relação às outras culturas levaram a sociedade alemã a ter uma preocupação muito grande com a dor do outro.

PV: Como isso se reflete na ação dos voluntários?

Marcos - O voluntariado alemão, no momento em que eu vivi lá, de 1988 a 1993, não cheguei a pesquisar sobre isso, mas senti isso, estava muito centrado em grupos e iniciativas que atuavam em determinadas situações que o capitalismo, mesmo mais social, como eles dizem praticar lá, não conseguiu resolver. Estou falando de moradores de rua, exilados, imigrantes, trabalhadores imigrantes. Viam-se, então, naquela época, jovens, adolescentes, adultos e idosos disponíveis na rua, abordando as outras pessoas – o que não é muito típico na cultura alemã – para arrecadar dinheiro, praticar ações de proteção da vida, de promoção da segurança das pessoas e assim por diante. Chamou-me a atenção também um outro ramo de voluntariado na Alemanha, o que procurava ajudar famílias a enfrentar dívidas, dívidas pessoais, dívidas familiares, o alcoolismo e outras, vamos dizer, ‘doenças’ e problemas sociais que sempre surgem no processo do desenvolvimento da sociedade.

PV: Que lembrança você tem do voluntário alemão?

Marcos - É um voluntário muito aguerrido. Quem é voluntário lá, é capaz de se doar muito pelo outro. É uma sociedade que trabalha muito para evitar a dor, a dor causada pela guerra. A guerra foi tão impressionante, tão terrível para as pessoas que elas procuram não ver essa dor renovada, espalhada. Pense em tudo que é possível ser feito para que essa dor seja evitada e você vai encontrar grupos e pessoas na Alemanha envolvidas em ações organizadas ou espontâneas, ajudando a sociedade na vida cotidiana, minimizando ou evitando a dor.

PV: Você defende que o nosso voluntariado deve levar em conta a tradição afro-brasileira e das culturas indígenas. Por quê?

Marcos - É comum a gente interpretar a história, em especial a nossa história, com um olhar europeu. Então a gente imagina que o voluntariado surgiu quando determinados grupos ou organizações religiosas passaram a ajudar lá na Europa a sociedade ou atuar na sociedade de modo a garantir a melhoria da vida de algumas pessoas. Mas, se nós olharmos para as nossas culturas, tanto a africana como as culturas indígenas, vamos perceber modelos de organização de sociedade assentados em processos de doação gratuita de um pelo outro, processos esses que garantiram que essas sociedades perdurassem e permanecessem. Foi por meio de ações coletivas de curas, ações coletivas para suprir necessidades de famílias que não conseguiram ser hábeis na caça ou não foram hábeis para construir seu abrigo, que estas sociedades conseguiram sobreviver.

PV: Você está falando de novo de Darwin? Do fundamento genético do voluntariado?

Marcos - Essas sociedades sempre se organizaram para apoiar as pessoas, que, do ponto de vista darwinista, eram mais frágeis, menos aptas para suprir suas necessidades. Funciona assim: o grupo social se organiza e as pessoas ficam sabendo como colaborar um com o outro. Nós temos essa herança muito forte, traduzida hoje em ação entre amigos. Contamos com isso dentro das famílias, no nosso grupo social temos o apoio e a amizade de uma rede enorme de acolhimentos sociais. Deste modo, é suprida uma série imensa de necessidades de uns pela ação de outros. No contexto de uma sociedade como a nossa, onde se concentra muito a renda, numa sociedade que tem disparidades muito grandes na partilha do poder e dos benefícios econômicos, nós vemos redes informais de todos os tipos. Parte delas são decorrentes de relações de amizade e parentesco, parte são grupos anônimos pelos quais a gente espontaneamente oferece alguma coisa, alguma forma de ajuda material, uma presença, uma ajuda cultural, uma ajuda educacional e assim por diante. E tudo isso é colocado à disposição do outro, de modo que esse outro possa de alguma maneira não sofrer tanto com a exclusão, não sofrer tanto com os problemas que são decorrentes do nosso tipo de sociedade.

PV: O que você faz profissionalmente?

Marcos - Presto serviços a ONGs, órgãos governamentais e empresas (…) , quando elas precisam planejar, fazer gestão e avaliação de seus projetos e ações. Capacitação e facilitação de processos de aprendizagem também são atividades que realizo. Neste mês, estou servindo a Associação Educacional Labor, de São Paulo, o Instituto de Pesquisa da Mata Atlântica, do Espírito Santo, e o Conselho Gestor da APA de Guaraqueçaba, no Paraná.

PV: De que trabalhos realizados você lembra com carinho, alegria? Que trabalhos, a seu ver, não deram certo?

Marcos - Resolvi interromper minha carreira como professor universitário para poder realizar trabalhos sem polarizar com a vida. Por todos os meus trabalhos tenho carinho e alegria. Destaco, entre eles, a Associação Educacional Labor porque sua missão é contribuir para que a escola pública se torne alegre, criativa e interessante para todos que dela fazem parte. O que não dá certo é o que é feito sem objetivo definido participativamente e sem a continuidade de quem tem força institucional para continuar. Todos os trabalhos sociais são processos, não existe certo ou errado. A maneira de olhar o resultado precisa ser estabelecida no coletivo e, se o processo respeitou cada nível da participação, ele terá resultados esperados e inesperados. A régua que utilizamos tem de medir, mas não precisa ser cartesiana. O “lucro” das ações sociais e voluntárias não é um problema da humanidade e do planeta, mas da cultura capitalista da nossa época. Nada substitui a consciência, os sinais e as impressões que construímos a cada trabalho, a cada ação.

Entrevista concedida ao Portal do Voluntariado

Ambientes Criativos

facilitador387Ambientes criativos são formados por grupos de profissionais que precisam trabalhar em equipe e criar juntos.

As equipes precisam:

  1. Olhar as coisas de um modo diferente e percebê-las de maneiras não usuais, superando enquadramentos,  julgamentos e inibições de visões inovadoras.
  2. Vencer o medo e ousar a expressar suas percepções e visões diferenciadas sem estar preocupado em colocar-se me situação de ridículo ou vexame no meio do grupo.
  3. Desenvolver habilidades sociais de modo a convencer os participantes da equipe das possibilidades da inovação proposta.

Assim, se sua equipe precisa dar saltos qualitativos na produção de inovações, mas alguma questão no processo social está inibindo a melhor performance, pode ser a hora em que uma ajuda externa pontual ou por um prazo determinado.

Com instrumentos e ferramentas que podem ser adaptadas sob medida para o desenvolvimento da sua equipe, promovemos oficinas, ações compartilhadas e coaching para a facilitação do desenvolvimento de ambientes criativos e inovadores.

Vença o desafio da criação compartilhada e inter disciplinar.

Fluxo de inovações

facilitador4583O trabalho dos gestores de equipes de inovação é desenvolver técnicas para que o trabalho coletivo possa fluir.

Os executivos precisam implantar processos e para que seus times estratégicos produzam resultados compartilhados com eficiência e prazer.

O trabalho do facilitador é apoiar estes líderes a levarem suas equipes a trabalharem em um fluxo de inovações constante.

Themocracy Pryzant Design